Lula e alto número de indecisos embaralham a eleição

Por Josue Leonel e Marisa Castellani

A três meses da eleição presidencial, as pesquisas eleitorais ainda são vistas como incapazes de traçar um cenário claro sobre quem será eleito presidente da República e até mesmo sobre quais nomes que irão ao segundo turno. Um dos fatores de incerteza é qual será a capacidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder nas pesquisas mesmo preso, transferir votos a outro nome caso sua candidatura seja vetada.

O outro ponto de dúvida diz respeito ao elevado número de eleitores indecisos, refletindo o desgaste da classe política diante dos escândalos de corrupção e a impopularidade recorde do governo Temer. Os indecisos – cujo número aumenta quando Lula não aparece entre os candidatos – levantam duas dúvidas cruciais: se eles vão mesmo se decidir por algum nome, caso em que cenário mostrado pelas pesquisas hoje poderia ser alterado, ou se eles rejeitarão todos os nomes e engrossarão os votos brancos e nulos, hipótese em que o atual quadro teria mais chances de se materializar nas urnas.

“Enquanto o PT não decidir sua estratégia, os resultados das pesquisas ficam meio artificiais”, diz Rafael Cortez, cientista político da Tendências Consultoria, em entrevista por telefone. A transferência dos votos do ex-presidente deve ser suficiente para dar competitividade ao “plano B” do PT, quem quer que seja o escolhido, diz o analista. Esse candidato teria chance de ir ao segundo turno, ameaçando desbancar Ciro Gomes e até mesmo Marina Silva, que segue com imagem mais identificada com a esquerda, apesar das ideias econômicas liberais de alguns dos seus assessores.

Uma dúvida sobre a tese de que o percentual de indecisos vai cair na hora H e de que a influência de Lula será forte foi levantada pela eleição extraordinária de junho no Tocantins. Na eleição, segundo noticiou o G1 na época, houve 43,5% de brancos, nulos e abstenções e a candidata apoiada por Lula e outras lideranças do PT, a ex-ministra de Dilma Katia Abreu, ficou em quarto lugar, fora do segundo turno.

Se o percentual excepcional de indecisos que vem sendo mostrado pelas pesquisas se preservar até a eleição de outubro, o atual cenário poderia ser mantido, favorecendo o líder Jair Bolsonaro e os demais ponteiros, Ciro e Marina. Caso contrário, a posição do pré-candidato do PSL poderia ser ameaçada, assim como os nomes de esquerda que sofreriam a concorrência do plano B petista.

Para Richard Back, analista político da XP Investimentos, o cenário de indecisos não deve ficar cristalizado como está até o final da eleição. “Na hora H, o eleitor vai votar”, diz ele. Back concorda com a ideia de que a definição de Lula é muito importante e o destino dos seus eleitores pode não favorecer Bolsonaro, pois a maioria dos votos do petista vem de mulheres, pobres e do Nordeste.

“Quando Lula sai do cenário, aumenta o número de indecisos, mas é muito difícil para Bolsonaro conseguir esses votos”, diz o analistas da XP. Para ele,Fernando Haddad deve ser o maior beneficiário caso Lula não seja candidato, pois tende a ter 44% dos votos órfãos do ex-presidente. Marina seria a segunda mais beneficiada no cenário sem Lula e Ciro, o terceiro.

Entre os nomes vistos como mais pró-reformas, o tucano Geraldo Alckmin tenta sair de um incômodo quarto lugar na maioria das pesquisas articulando apoios de forças do chamado centrão e do DEM, também disputadas por Ciro. Back avalia que, antes da definição das candidaturas em agosto, os pré-candidatos devem seguir focando nas negociações de bastidores e o próprio eleitor não deve dar muita atenção à corrida eleitoral. Para eleições “pegarem no tranco”, primeiro tem de acabar a Copa. “As pessoas agora estão olhando para o Neymar”, diz o analista da XP.

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