Má notícia na renda fixa é terrível na bolsa nos EUA

Por Marcus Ashworth.

Chegou a hora de os mercados agirem com maturidade.

Um elemento importante da atual volatilidade é a volta da inflação nos EUA. O movimento foi desencadeado pelo relatório de geração de empregos nos EUA, na sexta-feira passada. As dificuldades nos leilões de títulos do Tesouro americano com prazos de 10 e 30 anos sugerem que os investidores de renda fixa não vislumbram o fim dessa má fase. Portanto, a próxima divulgação que eles aguardam ansiosamente é o índice de preços ao consumidor dos EUA, que sai na quarta-feira que vem e pode validar temores de que o monstro da inflação está rondando.

Porém, mais do que os reajustes de preços, os investidores temem que os bancos centrais não prestem mais socorro ao primeiro sinal de problema. Após quase uma década recebendo uma enxurrada de recursos emergenciais quando surgia qualquer arranhão, as autoridades agora ousam recomendar que os mercados se virem sozinhos.

O responsável pelo escritório regional do banco central americano (Federal Reserve) em Nova York, Bill Dudley, caracterizou o abalo recente como “coisa pouca”. Isso significa que um dos integrantes mais benevolentes do comitê de política monetária praticamente não vê implicações econômicas nas dores do mercado. Não é consolo para investidores que esperam alguma forma de ajuda oficial.

Além disso, há mais chances de o Fed subir de novo a taxa básica de juros na reunião de 21 de março.

Do outro lado do Oceano Atlântico, a mudança de postura do Banco da Inglaterra, nesta quinta-feira, agrava o quadro, pois coloca um segundo grande banco central no caminho para o aperto dos juros. O Banco do Japão e o Banco Central Europeu parecem mais isolados.

Era sabido que a retirada dos estímulos monetários nunca seria fácil para os mercados. No entanto, a alteração significativa da perspectiva de um dos quatro principais bancos centrais do mundo no sentido de mais acréscimos nos juros e mais cedo do que se pensava — em meio a uma correção no mercado acionário — veio em má hora, para dizer o mínimo.

No curto prazo, parece que a má fase continuará na renda fixa. A disciplina fiscal decididamente não faz parte da reforma tributária nos EUA e a consequência é o aumento das emissões pelo Tesouro, o que, por sua vez, eleva os rendimentos. Esse processo atingirá os custos de captação das empresas e as mais endividadas sofrerão mais.

Quanto mais tempo durar esta correção, maior será o abalo na confiança e a necessidade de redefinição do risco de alavancagem.

O que era bom para as bolsas virou ruim. A rápida reversão da ascensão meteórica do Standard & Poor’s 500 em janeiro é compreensível. A pergunta é como os investidores vão lidar com um encerramento mais acelerado dos estímulos extraordinários proporcionados pelos bancos centrais.

Neste ambiente, se há pressão sobre os títulos de dívida, é provável que a pressão sobre as ações continue.

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