Por Julie Edde.

 Vamos supor que seu consultor financeiro avise que seus investimentos sofreram perda de 10 por cento. Você sai correndo?

Algumas firmas alertam que isso pode ocorrer em grande escala quando entrarem em vigor novas regras na Europa exigindo que informem seus clientes no fim do dia se a carteira deles perder essa quantia e cada vez que perder mais 10 por cento. Gestoras de fundos temem que, em vez de tornar os mercados mais transparentes, as novas regras vão fazer com que uma turbulência se transforme em pânico rapidamente.

“Alertar investidores não profissionais diretamente que o mercado está caindo só faria uma coisa – fazê-lo cair ainda mais”, disse Jean-Marie Catala, vice-presidente executivo da Groupama Asset Management, firma sediada em Paris que administra 102 bilhões de euros (US$ 120 bilhões).

A obrigatoriedade dos avisos é uma provisão pouco conhecida da Diretiva de Mercados em Instrumentos Financeiros (conhecida pela sigla MiFID II), que também força gestoras de recursos a pagar por pesquisas e negociação de ativos de modo separado. Os defensores da medida alegam que ajudará os clientes a se manterem mais informados e a agirem a tempo. Porém, diante de despesas adicionais e do potencial de perder comissões, as gestoras afirmam que investidores individuais podem entrar em pânico e amplificar as oscilações do mercado.

11 trilhões de euros

A provisão se aplicará a aproximadamente 11 trilhões de euros administrados em regime de mandato discricionário — ou seja, quando a gestora decide pelo cliente quando e onde investir. Quase metade dos fundos supervisionados para clientes na Europa se enquadra, de acordo com a Associação Europeia de Gestão de Fundos e Ativos.

A regra proposta exige o envio de cartas de aviso sempre que uma carteira dessas cair 10 por cento ou mais em relação ao último relatório trimestral. Ainda não está definido se a informação precisa chegar aos clientes no dia do aviso.

Para ilustrar como essas notificações seriam distribuídas durante uma crise, a gestora de fortunas Killik, de Londres, que supervisiona 5,5 bilhões de libras esterlinas (US$ 7,25 bilhões), criou uma carteira hipotética com 100.000 libras, investida no FTSE 100 Index durante a crise financeira. O resultado: seis avisos desde o início da queda até o início da recuperação.

“Usando a correção do mercado durante o aperto de crédito, os clientes teriam recebido tantos relatórios naquele período que eles poderiam fugir repentinamente do mercado por medo”, disse Clem MacTaggart, diretor operacional da Killik.

A firma entende que, em uma fase de profundo pessimismo no mercado, seus clientes, em sua grande maioria, não querem ouvir que o valor de suas carteiras está diminuindo e não acessam portais online porque se consideram investidores de longo prazo.

Dos 11 trilhões de euros em regime de mandato discricionário, somente 27 por cento são atribuídos a investidores individuais e o resto a investidores institucionais, segundo a Associação Europeia de Gestão de Fundos e Ativos. As seguradoras, por exemplo, costumam reagir mais rapidamente a ameaças dos mercados do que as pessoas físicas, que normalmente reagem a tendências quando já é tarde demais. Defensores da provisão de MiFID afirmam que a novidade pode ajudar esses investidores a tomar decisões melhores.

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