Este artigo foi publicado originalmente no BP Money.
Câmbio pressionado, juros altos e risco climático elevam a margem de erro; setor aposta em dados, hedge e métricas padronizadas para ganhar previsibilidade
O agronegócio brasileiro entra em 2026 com uma combinação que reduz o espaço para “achismo”: câmbio mais volátil, custo financeiro elevado e risco climático recorrente. Esse trio aumenta a margem de erro nas decisões de safra, logística e caixa, e, por isso, exige uma gestão mais técnica do que em ciclos anteriores. Essa leitura ganhou força em São Paulo, durante o evento Bloomberg Farm, Food & Fuel, que reuniu executivos para discutir os desafios da cadeia, do planejamento à mesa de risco.
O ponto comum das conversas direcionadas por Eduardo Passarelli, Head de Corporate Sales da Bloomberg nos Estados Unidos e na América Latina, foi: o setor não perde competitividade por falta de escala. Ele perde quando decide tarde, com informação incompleta e sem proteção adequada. Nesse ambiente, dados independentes e métricas padronizadas saem do “apoio” e passam a ditar a estratégia.
Câmbio, juros e clima: por que 2026 tende a ser mais difícil
A volatilidade do real aparece como um dos principais riscos operacionais. O câmbio influencia preços de insumos, receitas de exportação e a leitura de margem, e o mercado já incorpora, em parte, incertezas fiscais e o ciclo eleitoral. Assim, uma variação abrupta muda o orçamento do produtor e também o timing de venda.
Ao mesmo tempo, o crédito segue caro. Com juros elevados, o custo de carregar estoque, financiar custeio e rolar dívidas pesa mais. Por isso, a palavra do ano tende a ser previsibilidade: manter caixa, planejar desembolsos e evitar surpresas.
Já o clima amplia a dispersão de resultados. Ou seja: a média pode até ser boa, mas a diferença entre “safra excelente” e “safra frustrada” cresce. Consequentemente, a gestão de risco deixa de ser uma área isolada e passa a influenciar a decisão produtiva.
Hedge e benchmarks: a disciplina que voltou ao centro do agro
Com mais risco no caminho, cresce o apetite por instrumentos de hedge e por benchmarks independentes para balizar decisões. Isso vale para moeda, preço de commodities e até custos logísticos. Na prática, o setor busca “travar” parte do resultado, em vez de depender de um único cenário.
Esse movimento ganha importância justamente porque os custos continuam pressionados. A relação de troca de fertilizantes segue desfavorável em vários momentos do ciclo, enquanto gargalos logísticos ainda elevam despesas. Assim, mesmo quando a produtividade ajuda, a margem não “respira” automaticamente.
Exportação e concorrência: demanda asiática no radar diário
O Brasil segue competitivo em grãos e pecuária. No entanto, a concorrência global fica mais intensa, e os exportadores precisam acompanhar de perto:
- a evolução da demanda na Ásia,
- requisitos sanitários,
- mudanças em políticas de importação e tarifas.
Em outras palavras, vender bem exige mais do que produzir bem. Exige leitura de mercado, velocidade e execução.
Agricultura de precisão
A tese central do evento foi que modelos baseados apenas em histórico já não bastam. O setor precisa combinar informações atualizadas, análises preditivas e visão integrada de risco.
Essa virada tem suporte em evidências. A FAO descreve a agricultura de precisão como uma abordagem orientada por dados, que melhora produtividade e reduz a necessidade de insumos como água, fertilizantes e pesticidas. Além disso, o Escritório Europeu de Patentes (EPO) aponta que as tecnologias de agricultura digital crescem a um ritmo bem acima da média: os depósitos de patentes avançaram a uma taxa média anual de 9,4%, cerca de três vezes o ritmo médio dos demais campos tecnológicos.
Na prática, isso explica por que “dado” virou insumo tão estratégico quanto fertilizante: ele reduz erro, melhora eficiência e encurta tempo de resposta.
(Por Eduardo Passarelli, Head de Corporate Sales da Bloomberg nos Estados Unidos e na América Latina)
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