Por Bruce Douglas e Raymond Colitt.

O impeachment de uma presidente foi traumático. A perspectiva de uma reprise espalhou pessimismo e descrença por todo o Brasil na quinta-feira, quando a Polícia Federal fez buscas em casas de políticos, uma horda de helicópteros sobrevoou a capital, os mercados entraram em colapso e o presidente Michel Temer avisou que não renunciaria.

Sua antecessora Dilma Rousseff saiu há apenas 12 meses, acusada de crimes de responsabilidade fiscal. As acusações contra Temer também podem acabar com o mandato dele, se for verdade o que publicou O Globo – que ele teria dado aval para compra do silêncio do ex-presidente da Câmara de Deputados Eduardo Cunha, que está preso.

A notícia explodiu “como uma bomba atômica”, na visão do deputado federal Alessandro Molon. O coro pedindo a saída do presidente ganhou mais adeptos. Ele se reuniu a portas fechadas com assessores na maior parte do dia e, em pronunciamento à televisão à tarde, declarou que pretende permanecer no cargo e provar sua inocência. “Sei o que fiz”, ele declarou. “Sei a correção dos meus atos.”

Para os investidores que compraram a promessa dele de aplicar medidas de austeridade em meio à pior recessão da história brasileira, os acontecimentos do dia foram dolorosos. As ações da estatal Petrobras desabaram 15 por cento. As perdas na bolsa chegaram a US$ 150 bilhões.

Acostumados a escândalos e reviravoltas, os brasileiros não parecem dispostos a assistir a mais manobras políticas e procedimentos jurídicos como os que antecederam o impeachment de Dilma. Em uma feira livre no centro de Brasília, algumas pessoas diziam que seria melhor a volta da ditadura.

‘Todos palhaços’

Já o vendedor de roupas Francisco Rodrigues Araújo, 41 anos, sugeriu colocar na presidência o humorista e deputado federal Tiririca, do slogan “Pior do que está não fica!”.

“Eles são todos palhaços mesmo”, disse o vendedor. “Por que não colocar um no comando?”

O país sucumbiu a mais uma crise quando o jornal O Globo publicou na noite de quarta-feira que o Supremo Tribunal Federal tinha gravações em que Temer teria aprovado um pagamento para comprar o silêncio de Cunha, que articulou o processo de impeachment de Dilma no ano passado e agora está na prisão. Na tarde de quinta-feira, o website do jornal disponibilizou uma gravação em áudio na qual alguém que supostamente seria Temer discutia o pagamento.

Segundo o jornal, o conteúdo foi passado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, do frigorífico JBS, como parte de um acordo de delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato. O STF analisa acusações contra Temer e outras pessoas que os irmãos implicaram.
‘Crianças mimadas’

Horas após a publicação em O Globo, partidos de oposição protocolaram pedidos de impeachment e surgiram convocações de manifestações populares por eleições diretas. De noite, multidões se reuniram em pontos estratégicos de diversas cidades pedindo a saída de Temer. No Rio de Janeiro, a polícia enfrentou manifestantes que atiraram pedras com balas de borracha e gás lacrimogêneo.

Do lado de fora do Palácio do Planalto, em Brasília, cerca de 1.000 pessoas acenavam com bandeiras e cartazes e gritavam “Temer ladrão, seu lugar é na prisão”.

Para João Bendito, 18 anos, a manifestação foi só o começo. “Precisa ter muito mais gente para fazer o Temer renunciar”, ele disse. “O povo está indignado com essas crianças mimadas que estão no poder hoje”.

O ressentimento contra Temer vem se acumulando há meses. Após ter assumido o cargo que era de Dilma, seus índices de aprovação não passaram de um dígito. Oito ministros dele caíram diante de acusações de má conduta e três estão sendo investigados. Seus inimigos políticos frequentemente o comparam com um mordomo de filme de terror.

Na quinta-feira, aliados de Temer romperam ou ameaçaram romper com o governo se as acusações forem comprovadas. O ministro da Cultura, Roberto Freire, entregou a pasta.

Em seu pronunciamento, Temer disse que a incerteza política voltou bem quando as perspectivas para o Brasil melhoravam, com a inflação sob controle, sinais de recuperação da economia e reformas avançando no Congresso. “Todo um imenso esforço de retirar o País de sua maior recessão pode se tornar inútil”, ele disse. “E nós não podemos jogar no lixo da história tanto trabalho feito em prol do País.”

A fala dele não convenceu a escritora Janete Silva, que protestava em frente ao Palácio do Planalto. “O discurso de Temer foi hipócrita, inseguro, autoritário e arrogante”, ela disse. “Mostra que ele não se importa com o que as pessoas pensam.”

O presidente enfrenta ainda outra ameaça. O Tribunal Superior Eleitoral estuda anular o resultado da eleição de 2014 devido a alegações de financiamento ilegal da campanha da chapa Dilma-Temer.

“A recusa de Temer a renunciar significa que a incerteza política vai permanecer elevada no curto prazo, alimentando protestos nas ruas e paralisando o Congresso”, de acordo com relatório escrito por Thomaz Favaro, analista-chefe para Brasil da consultoria Control Risks. “Uma troca de governo não programada continua sendo um desdobramento crível.”

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