Por Samy Adghirni.

Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo uma figura tão imponente na política brasileira que ele faz sombra mesmo quando não está presente.

Quando o presidente Michel Temer inaugurou, na semana passada, uma obra da transposição do rio São Francisco para irrigar a cidade de Monteiro, no semi-árido nordestino, boa parte do reconhecimento de moradores e políticos presentes no evento foi para Lula por ter iniciado, há mais de uma década, esse tão aguardado projeto.

“Agradeço a Deus pela obra”, disse o agricultor João Bezerra, de 51 anos. “Mas também agradeço a quem realmente a iniciou: Lula.”

O ex-metalúrgico, sindicalista e presidente de 71 anos ainda desperta devoção de muitos brasileiros, especialmente no Nordeste. Apesar de um escândalo de corrupção devastador, em grande parte originado em seu mandato, e do catastrófico recuo da economia sob o comando de Dilma Rousseff, a sucessora que escolheu a dedo, Lula sinaliza um possível retorno. Diante de nada menos que cinco diferentes acusações formais contra ele — três delas ligadas à Operação Lava Jato –, o líder de esquerda continua sendo o político mais popular nas pesquisas de opinião a apenas 18 meses da próxima disputa presidencial.

“Lula é um fenômeno e sempre será”, disse o analista político independente André César. “Mas as acusações e investigações o afetaram muito.”

O establishment político brasileiro está longe de considerar Lula carta fora do baralho. Aloysio Nunes, ministro das Relações Exteriores e um dos principais quadros do PSDB, disse à Bloomberg que vê chances de o ex-presidente retornar ao poder.

“Lula é um ídolo”, disse ele. “Ele é forte, popular.”

Legado de Lula

Dezenas de milhões de brasileiros saíram da pobreza durante o governo Lula, a quem o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, chegou a chamar de político mais popular do planeta. Lula dominou a vida pública brasileira de um jeito que não se via desde a época do líder nacionalista Getúlio Vargas e encerrou seus oito anos no poder com índice de aprovação recorde.

Para Flávio Lúcio Rodrigues Vieira, sociólogo e historiador da Universidade Federal da Paraíba, a popularidade do ex-presidente entre tantos nordestinos se deve aos investimentos de seu governo na infraestrutura da região e aos programas sociais.

“Políticas de inclusão social tiveram efeito maior no Nordeste pelo fato de a região ter média menor de renda e salário”, disse ele. A ascensão de Lula, que nasceu numa área pobre do Nordeste e alcançou o mais alto cargo público do Brasil, continua sendo fonte de inspiração para muita gente na região, acrescentou Flávio Lúcio.

O ex-presidente, que não quis se pronunciar, deixou clara diversas vezes sua disposição em concorrer novamente “se necessário”. A morte recente de sua esposa, dona Marisa Letícia, gerou uma onda de compaixão entre seus simpatizantes. Um dos oradores no funeral descreveu a ex-primeira-dama, que também enfrentou acusações de corrupção, como “vítima de perseguição”. A crença generalizada entre os seguidores de Lula de que as acusações contra ele representam uma caça às bruxas fortaleceu seu apelo em lugares como Monteiro.

“Só Lula se importou com os pobres”, disse Bezerra. “Eu votaria nele de novo 200 vezes se pudesse.”

Poucos moradores de Monteiro pensam diferente. Na última eleição, 77 por cento da população da cidade votou em Dilma. No pleito presidencial de 2006, mais de 83 por cento dos eleitores votaram por um segundo mandato de Lula, segundo números do Tribunal Superior Eleitoral. Horas antes da chegada de Temer à cidade, na semana passada, uma emissora de rádio local pedia insistentemente aos moradores que não protestassem. Mas quando a cerimônia começou, os organizadores precisaram colocar a música ambiente a todo volume para abafar as vaias dos manifestantes a Temer e a ovação a Lula.

Mas de 50 milhões de brasileiros vivem no empobrecido Nordeste e muitos recebem o Bolsa Família, o programa de benefícios expandido drasticamente durante o governo do PT.

Em Boqueirão, outra cidade castigada pelo sol no interior da Paraíba, os moradores reclamam da falta de oportunidades de emprego e dos planos do governo Temer de reformar a previdência para forçar os brasileiros a se aposentarem mais tarde.

“Temer quer que a gente trabalhe mais, mas, se não trabalho, como vou me aposentar?”, perguntou Ilza Silva, de 40 anos, mãe de três filhos, que depende totalmente do Bolsa Família para alimentar a família. “Eu votaria sempre em Lula e Dilma se pudesse.”

Índices de rejeição

Mas, fora do Nordeste, a popularidade de Lula e do PT foi seriamente arranhada. Nas eleições municipais de outubro passado, o partido perdeu a prefeitura de São Paulo, a maior cidade do Brasil, juntamente com 60 por cento dos municípios que haviam sido conquistados na eleição anterior, em 2012.

Analistas da consultoria política Eurasia Group disseram, em relatório publicado em 9 de março, que mesmo que concorra à presidência, Lula tem poucas chances de vencer, devido a elevados índices de rejeição fora do Nordeste. Uma pesquisa recente realizada pela Ipsos Public Affairs apontou que 66 por cento dos entrevistados desaprovam Lula como candidato, total ou parcialmente.

“Lula lidera em intenções de voto em grande parte devido ao reconhecimento de seu nome e a uma base de apoio relativamente fiel que totaliza 25 a 30 por cento do eleitorado”, escreveram os analistas da Eurasia.

A candidatura do ex-presidente também enfrenta obstáculos legais. Se ele perder apenas um dos processos, será barrado pela lei da Ficha Limpa, que proíbe qualquer pessoa condenada em decisões de segunda instância de se candidatar a cargos públicos, segundo a Eurasia.

Contudo, apenas uma semana após a visita de Temer, neste domingo Lula planeja visitar Monteiro para realizar sua própria inauguração não oficial do projeto de transposição do Rio São Francisco. Ele certamente terá uma recepção mais calorosa que o atual presidente.

Preso durante a ditadura militar, Lula perdeu três eleições antes de sua vitória em 2002. Ele já desafiou probabilidades e pode fazê-lo novamente em 2018. Mas alguns analistas acreditam que, desta vez, o ex-presidente pode simplesmente decidir não concorrer.

“Lula pode desistir tanto pelas questões legais como pela possibilidade de perceber que entrar na disputa para perder poderia manchar sua imagem”, diz César.

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