Qualidade, integridade e amplitude de dados

A versão original deste artigo foi impressa na Risk & Compliance Magazine, edição de jul-set 2018.

Uma mini mesa redonda com Lisa Roitman (Estrategista de Negócios para Tecnologia de Compliance Regulatória, Bloomberg L.P.), Janos Renz Hotz (Estrategista de Melhor Execucção BTCA, Bloomberg L.P), Mike Tirello (Gerente Global de Produtos de Compliance, Bloomberg L.P), Bob Shea (Gerente Global de Produtos de Compliance AIM, Bloomberg L.P.) e Paul Lanois (Vice-Presidente do Conselheiro Geral, Credit Suisse AG).

R&C: O que você considera ser o maior desafio relacionado a dados atualmente enfrentado pelas empresas?

Shea: No ambiente regulatório atual, uma empresa de investimentos deve coletar, validar e normalizar dados de várias fontes para atender obrigações de compliance e relatórios transacionais. As empresas devem fornecer relatórios apropriados usando identificadores padrão do setor, como identificadores de entidade jurídica (LEIs), para ativos, contrapartes,tomadores de decisão e contas relacionadas à transação. Frequentemente, é necessário um investimento técnico pesado para integrar vários sistemas que contém dados necessários para cumprir a regulamentação. Além de responsabilidades de relatórios comerciais, as empresas devem implementar processos para garantir que as verificações de compliance pré e pós-negociação sejam avaliadas com dados adequados. Um design sofisticado deve ser implementado para que os dados de referência de segurança possam ser recebidos quase em tempo real, o que permite que as verificações de compliance sejam executadas à medida que novas ordens ou negociações sejam enviadas para execução.

Lanois: Por mais estranho que pareça, um dos maiores desafios relacionados a dados que as empresas enfrentam é a extensa publicidade em torno de novas tecnologias. Todos nós já ouvimos diversas vezes como uma nova tecnologia chegou para ser a melhor coisa do momento e isso muitas vezes leva à adoção cega, simplesmente porque as organizações desejam estar na moda e não perder para seus concorrentes, tudo isso para desistirem pouco tempo depois, com grandes custos, ao notarem que tal ferramenta ou tecnologia na verdade não atende às necessidades da empresa. Não há nada de errado em ser um pioneiro na adoção de novas tecnologias que, em muitos casos, podem beneficiar muito o seu negócio. Há muitos benefícios potenciais, como redução de custos, aléms de maior rapidez, eficiência ou confiabilidade de dados. Ainda assim, a adesão deve sempre ser cuidadosamente considerada e deve se ajustar à organização, não o contrário. Aderir às últimas e maiores tendências apenas por serem populares no momento pode ser um grande erro.

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R&C: Quais métodos as empresas podem empregar para obter dados de boa qualidade? Por que é necessário se empenhar para atingir esse objetivo?

Lanois: É necessário empenho para alcançar dados da maior qualidade possível, pois decisões de negócios são tão boas quanto os dados usados para alcançá-las. Pode ser tentador coletar o máximo de dados possível, mas se estes não forem confiáveis, pode ser inútil ou mesmo prejudicial usá-los na tomada de decisões. Há também a tentação de simplesmente obter dados assim que aparecem, a fim de executar uma análise e conseguir estatísticas, e chegar a uma conclusão sem dedicar o tempo necessário para realmente entender tais dados e onde foram originados.

Shea: Empresas que investem recursos para melhorar a qualidade dos dados aumentam suas chances de sucesso. Isso pode ser alcançado com a implementação de soluções técnicas para validação e limpeza de dados, juntamente com boas ferramentas de gerenciamento de processos para monitorar o fluxo de trabalho. A aplicação de inteligência de negócios sólida ao processo de gerenciamento de dados é fundamental para obter dados de qualidade. Pode ser empregada para prever valores esperados que podem então ser utilizados para abordar exceções de dados e fornecer uma vantagem sobre soluções baseadas em dados. Quando há falha em um processo específico fundamental para o fluxo de trabalho geral de gerenciamento de dados, procedimentos automatizados de recuperação devem ser implementados para resolver o problema.

R&C: Qual é a importância das empresas se prepararem para responder às requisições de órgãos reguladores em relação à transparência e pontualidade relacionadas à coleta de dados? Que medidas as empresas podem tomar para garantir que estejam relatando de forma precisa e completa?

Tirello: É extremamente importante ser adequado e preciso ao responder a um regulador. Dependendo das obrigações regulatórias da sua empresa, há certosprazos que você deve ser capaz de cumprir a fim de evitar a investigação minuciosa de sistemas, políticas e procedimentos, e possíveis multas. As empresas devem realizar revisões regulares de suas linhas de negócios para garantir que estejam capturando todos os dados relevantes de acordo com as diretrizes regulamentares e, em seguida, executar apurações frequentes ou auditorias internas para assegurar que os dados foram realmente capturados e são recuperáveis. Se as linhas de negócios mudarem, novas revisões devem ser realizadas para garantir que todos os novos dados sejam capturados. Contratar auditores externos pelo menos uma vez por ano para revisar as políticas e procedimentos da sua empresa, bem como executar verificações, é uma necessidade no ambiente regulatório atual em constante mudança, e indica aos reguladores que sua empresa leva compliance a sério.

Lanois: Atualmente, o processo de geração de relatórios em muitas instituições financeiras é fragmentado em relatórios individuais, cada um com seu próprio banco de dados e ferramentas para produzir um relatório normativo específico. Por exemplo, você teria relatórios para risco de crédito, risco de liquidez, teste de estresse e assim por diante. Cada um seria produzido por um departamento específico usando suas próprias ferramentas e sistemas, algumas das quais podem ser antigas e não necessariamente compatíveis com outros sistemas. Para resolver isso, as organizações podem aplicar ajustes e correções de reconciliação para atender exigências regulatórias, contudo, sistemas defasados provavelmente criarão mais problemas, à medida que os reguladores esperam cada vez mais que as organizações forneçam relatórios mais abrangentes, dentro de prazos mais curtos.

R&C: Até que ponto recorrer a dados de boa qualidade ajuda as empresas com seus requisitos de relatórios de identificador de entidade jurídica (LEI), além de sua capacidade de estabelecer dados em fluxos de trabalho integrados?

Lanois: Um conjunto de dados é apenas tão bom quanto a qualidade dos dados que contém. Portanto, é essencial que todos os dados usados para alimentar um banco de dados central sejam validados à medida que são importados, para garantir que não hajam erros ou inconsistências de dados ausentes, e que a qualidade dos dados, tal como sua idade, cumpra os requisitos de relatórios que a organização está sujeita. Além disso, embora a indústria esteja gradualmente se movendo em direção à harmonização em relação a modelos de relatórios, organizações com operações internacionais ainda enfrentam a exigência de relatar informações em diferentes modelos para os diferentes países onde operam.

Roitman: LEIs são apenas um exemplo da importância de possuir bons dados. São um prérequisito para negociação.Simples de se obter e fáceis de consultar, estão disponíveis em bancos de dados públicos. No entanto, por mais simples que sejam, têm causado todo tipo de dificuldade para integrantes do mercado financeiro. O que torna o processo tão difícil? Se você não conhece a entidade com a qual está negociando, é impossível usar o identificador correto.Vemos isso como um desafio comum entre as empresas. Em relação a MiFID II, por exemplo, empresas de buy-side e sell-side possuem obrigações de relatórios exigindo que sejam capazes de identificar uma contraparte pelo seu LEI, mas se você nunca se deu ao trabalho de organizar uma lista limpa e correta de suas contrapartes, como poderá encontrar e relatar os identificadores corretos? Para empresas do buy-side, isso se tornou um ponto crítico, já que historicamente não se concentraram em identificar especificamente quais subsidiárias comerciais ou afiliadas de suas instituições financeiras negociam, compensam e liquidam cada tipo de produto financeiro. O resultado é que não há como determinar o LEI para fins de relatório e, portanto, não há como cumprir totalmente os requisitos da MiFID II. Da mesma forma, instituições financeiras são obrigadas a entrar em contato com milhares de seus clientes para coletar documentações ou homologações regulatórias em conjuntura com a evolução das regulamentações Sem os dados limpos mais básicos, em especial uma lista de clientes atualizada, é impossível automatizar processos ou fluxos de trabalho. Muito tempo e dinheiro são gastos corrigindo os problemas de uma empresa com dados básicos. Para evitar preocupações operacionais futuras, as empresas devem focar na qualidade e amplitude de dados desde o início e, naturalmente,na integridade de dados ao longo do ciclo de vida da negociação.

R&C: Em sua opinião, quais áreas precisam ser melhoradas para que as empresas resolvam seus problemas atuais com dados?

Roitman: Em um mundo ideal, profissionais nos departamentos de negociação, jurídico, compliance e operações trabalharão juntos para construir processos inteligentes, de modo que as informações corretas sejam coletadas desde o início de qualquer relacionamento comercial. Para empresas maduras, agora é a hora de se concentrar nos dados. A evolução das regulamentações apenas exigirá que as empresas saibam mais e acessem o que sabem mais rapidamente. A quantidade de dados que as empresas coletam, usam, abrigam e projetam simplesmente continuará aumentando, e a única maneira de lidar com essas demandas cada vez maiores será trabalhar em processos inteligentes de automação. Portanto, dedique desde já o tempo necessário para pensar cuidadosamente sobre seus dados. Trabalhe para se certificar de que estão limpos e completos e depois pense em integridade – como vai protegê-los, compartilhá-los e mantê-los atualizados?

Lanois: Para resolver problemas com dados, as organizações terão que consertar a escassez de know-how. Existem apenas alguns profissionais de análise altamente qualificados. Então, há uma enorme necessidade de atualizar sistemas defasados para resolver o problema dos silos de dados. Por fim, organizações geralmente armazenam muitos dados sem saber o que realmente possuem. Muitos dos dados estão espalhados, em bancos de dados antigos localizados nas instalações, armazenados em serviços de compartilhamento baseados em nuvem, plataformas de Big Data e assim por diante. Muitos dados também não são categorizados e podem ser redundantes, obsoletos ou triviais.

R&C: Que benefícios as empresaspodem obter com melhores dados?

Lanois:
Ter melhores dados não significa ter mais dados; em vez disso, significa possuir dados que passaram por validação. Quando uma empresa é capaz de tomar decisões com base em dados cuja qualidade foi validada, fica mais fácil tomar decisões estratégicas mais eficientes, de maneira mais confiável e sem necessidade de retrabalho, enquanto dados não confiáveis resultam em decisões que muitas vezes podem levar a erros e a necessidade de gastar mais tempo para reconciliar dados. Além disso, dificuldades em compreender o desempenho e as tendências atuais podem dificultar a capacidade da organização de identificar e explorar novas oportunidades. Em muitos casos, se concentrar na quantidade de dados pode ser contraproducente.

Hotz: Melhores dados significam melhor infraestrutura para fazer escolhas mais informadas e justificáveis. Com dados melhores, você obtém mais confiança no processo, melhores benchmarks representando a intenção dos gestores de portfólio (PMs) e fundos de forma mais favorável, e pode alinhar as metas dos PMs e traders. Isso oferece uma estrutura melhor para discutir e relatar os custos do fundo, bem como gerenciar processos para reduzir derrapagem e, consequentemente, melhorar o alfa.

As questões a serem prevenidas estão introduzindo muita complexidade, com benchmarks reservados demais para serem comparáveis entre fundos e clientes. Dados melhores e mais abrangentes permitem verificações de fiscalização comercial muito melhores, aproveitando testes muito mais granulares. Ao contrário dos instintos iniciais, verificações mais granulares, se executadas dentro de um processo repetível e baseado no fluxo de trabalho, levam a menos falsos positivos. Algo a evitar é a realização de testes complicados demais para serem explicados ou repetidos. Dados coletados de maneira sistemática por meio de processos de execução e compliance permitem avaliar e evoluir ainda mais tais processos. Uma “cultura de dados” dentro da melhor execução e compliance permite muito mais do que apenas capturar alfa de forma mais significativa e melhor gestão de risco na vigilância de negociação – também estabelece os alicerces para preparar sua organização para o futuro e competir melhor em um mundo onde os dados são cada vez mais o principal commodity.

R&C: Como você encara a evolução do cenário de dados nos próximos anos? As empresas precisam agir agora para garantir que seus processos permaneçam relevantes em um mundo de negócios orientado por dados?

Tirello: Haverá uma demanda maior por qualidade e precisão de dados, que impulsionará iniciativas maiores. O uso de inteligência de máquina orientada por dados permite que tendências e agentes ruins sejam identificados quando não foram anteriormente. As empresas poderão procurar tendências em partes isoladas dos negócios, que normalmente eram mantidas separadamente. Com os relatórios de transação já em andamento na Europa e a trilha de auditoria consolidada (CAT) sendo lançada em breve nos EUA, as empresas devem ter certeza de que compreendem seus fluxos de trabalho de negócios e que eles estejam exibidos adequadamente em seus livros e registros. Caso não dediquem o tempo necessário para análise, as ferramentas em constante evolução à disposição dos reguladores, além da aplicação de multas, podem não apenas prejudicar a reputação de uma empresa, mas possivelmente levá-la à falência. Contratar um fornecedor líder na área para gerenciar e armazenar os dados da sua empresa é uma opção que permite aproveitar a perícia de várias empresas em auditoria e práticas recomendadas, onde normalmente não teriam tal exposição.

Lanois: O fato de que hoje em dia geramos mais dados do que nunca provavelmente continuará nos próximos anos, à medida que nos tornamos uma sociedade ainda mais orientada por dados. Fluxos de dados serão cada vez mais combinados, em vez de ficarem isolados, o que significa que sistemas defasados deverão ser atualizados ou substituídos para permitir mais comunicações entre sistemas, seja por meio de APIs ou aplicativos. Algoritmos inteligentes e novas tecnologias permitirão mais automação, menos interação humana e um melhor entendimento dos dados.

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