A eleição presidencial de 2018 acrescenta enorme grau de incerteza a um quadro já instável, com recuperação frágil da economia, taxa de câmbio sobrevalorizada, dívida pública em trajetória ascendente e falta de progresso consistente no ajuste fiscal proposto pelo atual governo. Com o ano novo se aproximando, o panorama eleitoral vinha sendo apontado por clientes e parceiros da Bloomberg como tema preferido para mais uma edição do Simpósio Corporativo Bloomberg.

A análise da conjuntura eleitoral ficou a cargo de Murillo de Aragão, fundador da Arko Advice e um dos mais renomados especialistas em política brasileira. Segundo ele, a apenas um ano da votação, a incerteza sobre quem serão os candidatos e suas chances de vitória só é comparável à da época em que Fernando Collor de Mello foi escolhido presidente da República. “O Brasil vive há três ou quatro anos uma sucessão de paradoxos que destroem convicções, modelos e visões de mundo que prevaleceram no País durante muitas décadas”, avaliou Aragão.

Esta lista de paradoxos inclui o crescimento do poder judiciário, a degradação do poder executivo, múltiplos conflitos institucionais, a maior frequência das decisões sem consenso dentro do Supremo Tribunal Federal, o avanço de uma agenda reformista apesar da turbulência política, o desejo da sociedade de renovar a política tradicional, além das redes sociais se sobrepondo à televisão aberta como grande formadora de opinião, facilitando a manipulação de eleições por meio de notícias falsas.

No contexto formado por tantos paradoxos, Lula lidera as pesquisas de intenção de voto, mas, na visão de Aragão, é elevada a probabilidade de a Justiça impedir a candidatura do ex-presidente. Para o cientista político, Jair Bolsonaro, que aparece em segundo lugar nas pesquisas, não conta com estrutura partidária suficiente para impulsionar sua candidatura adiante, o que, na outra ponta ideológica, também prejudica Marina Silva. Aragão ressaltou que, com a proibição do financiamento privado de campanhas, a estrutura partidária, os cargos já ocupados pelos partidos e a máquina pública serão ainda mais importantes nos esforços para convencer o eleitorado, dificultando a atuação de novos entrantes no páreo.

Segundo Aragão, “o centro continua favorito” e tem condições de produzir algum candidato que atenda aos desejos da sociedade de reforma e renovação. “Neste momento, talvez o candidato que melhor encarna essa possibilidade é João Dória”, que, no entanto, ainda disputa com Geraldo Alckmin a candidatura pelo PSDB. “A melhora da economia pode ser um fator de reforço do centro”, ele prevê.

Com o tabuleiro político e as alianças ainda longe de qualquer definição, investidores e tesoureiros se preparam para o aumento da volatilidade na taxa de câmbio nos próximos meses.

Uma pesquisa feita em tempo real com participantes do evento em uma plataforma digital apontou que um terço dos respondentes esperam que o real atinja R$3,50 ou mais até o final de 2018, enquanto dois terços esperam que o real fique abaixo desse valor. A grande maioria dos respondentes acredita que o real ficará entre R$3,00-4,00 em relação ao dólar.

Resultado completo da pesquisa feita com participantes do evento

Segundo Marco Maciel, economista-chefe da Bloomberg Intelligence para o Brasil, o real deveria estar em patamar bem mais enfraquecido devido à deterioração das contas públicas e, por ora, vem sendo sustentado pela equipe econômica do presidente Michel Temer e pela expectativa de reforma da previdência.

O ajuste fiscal: a reforma da previdência virou a solução de longo prazo para as despesas

“O câmbio está excessivamente valorizado”, avalia Maciel, acrescentando que pode se formar um quadro de volatilidade extrema antes das eleições capaz de empurrar o dólar para a casa de 4,00 reais.

Quanto à atividade econômica, Maciel explicou que a retomada é puxada pelo momento particularmente favorável do setor agrícola, que contribui para a queda de preços dos alimentos, que por sua vez colabora para o recuo da inflação e dos juros. Juntamente com a redução do desemprego, esses fatores estimulam os gastos das famílias. “É um crescimento ainda frágil. Inflação e PIB em 2018 também dependem do câmbio, que depende da surpresa eleitoral”, disse ele.